Uma operação deflagrada na manhã desta quinta-feira (15) revelou suspeitas de um esquema de infiltração do crime organizado em estruturas do poder público de Macapá. Batizada de Operação Cavalo de Tróia, a ação resultou no afastamento cautelar de um vereador, na suspensão de um primeiro suplente e no afastamento de dois servidores públicos.

A investigação é conduzida pela Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Amapá, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual.

Por volta das 6h, equipes policiais iniciaram o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão em residências, gabinetes da Câmara Municipal de Macapá e dependências do Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).

Segundo a Polícia Civil, as investigações apontam que agentes políticos e servidores públicos teriam colocado suas funções institucionais a serviço da organização criminosa Família Terror do Amapá (FTA), em um esquema de troca de favores envolvendo apoio político, indicações para empregos e benefícios dentro do sistema penitenciário.

Apoio político em troca de empregos

Um dos pontos mais graves da investigação envolve a suspeita de utilização de gabinetes parlamentares para atender interesses da facção.

De acordo com a Draco, uma mulher apontada como liderança externa da FTA seria responsável por mobilizar apoio comunitário em benefício de agentes políticos.

Em contrapartida, parlamentares e servidores públicos investigados teriam utilizado sua influência para conseguir empregos destinados a pessoas indicadas pela organização criminosa.

As vagas seriam oferecidas por empresas terceirizadas que prestam serviços à saúde pública e por entidades conveniadas à administração.

Na prática, segundo a hipótese investigada, a facção ofereceria apoio político enquanto integrantes do poder público facilitariam o acesso de seus indicados a oportunidades de trabalho.

Os investigadores suspeitam que a estrutura de gabinetes da Câmara Municipal tenha sido utilizada para organizar e encaminhar essas indicações.

Facção também teria recebido privilégios dentro do Iapen

A investigação não se limita às suspeitas envolvendo o Legislativo municipal.

Segundo a Polícia Civil, a mesma rede de influência teria alcançado o sistema penitenciário do Amapá.

O companheiro da mulher apontada como liderança externa da facção é identificado pela investigação como o principal dirigente da organização criminosa, mesmo estando preso no Iapen.

A Polícia Civil afirma que teria sido estabelecido um canal informal de comunicação entre a liderança externa da FTA e a direção responsável pela ressocialização dos internos.

Essa relação teria permitido favorecimentos administrativos dentro da unidade prisional, incluindo acesso a vagas de trabalho e benefícios relacionados à remição de pena do líder da facção.

A remição é o mecanismo legal que permite a redução do tempo de cumprimento da pena por meio de atividades reconhecidas pela legislação, como trabalho e estudo. O objeto da investigação é a suspeita de favorecimento irregular na concessão desses benefícios.

Vereador, suplente e servidores são alvos de medidas judiciais

A operação resultou na aplicação de medidas cautelares contra quatro pessoas vinculadas ao poder público.

Um vereador de Macapá foi afastado temporariamente do exercício do mandato, ficando proibido de acessar as dependências da Câmara Municipal, seus sistemas informatizados e repartições.

Um primeiro suplente de vereador teve suspensa cautelarmente qualquer possibilidade de convocação, posse ou exercício do mandato, além de também estar impedido de entrar na Casa Legislativa.

No Iapen, o diretor do Departamento de Ressocialização e Cidadania foi afastado de suas funções. Ele teve os acessos aos sistemas carcerários suspensos e está proibido de ingressar nas unidades prisionais do Amapá.

A quarta pessoa atingida pelas medidas é uma servidora da Ouvidoria da Câmara Municipal de Macapá.

De acordo com a investigação, ela teria participado do recebimento de currículos encaminhados pela facção e do agendamento privilegiado de consultas médicas.

A servidora também foi afastada do cargo e proibida de acessar a Câmara e seus sistemas.

Investigados estão proibidos de manter contato

Além dos afastamentos, a Justiça determinou outras medidas cautelares.

Os investigados estão proibidos de manter contato entre si, com testemunhas e com lideranças da facção que se encontram presas.

Também deverão comparecer à Justiça a cada dois meses e não poderão se ausentar de Macapá por mais de sete dias sem autorização judicial.

Até o momento, a Polícia Civil não divulgou oficialmente os nomes dos investigados atingidos pelas medidas.

A operação segue sob sigilo, e as suspeitas ainda dependem de apuração e eventual responsabilização judicial.

Por que o nome Cavalo de Tróia?

O nome escolhido para a operação faz referência ao episódio da mitologia grega em que soldados conseguiram entrar em uma cidade fortificada escondidos dentro de um cavalo de madeira apresentado como presente.

No contexto da investigação, a expressão representa a suspeita de que integrantes de uma organização criminosa tenham conseguido atuar dentro de instituições públicas por intermédio de agentes políticos e servidores.

O caso levanta questionamentos sobre os mecanismos de controle de indicações para vagas de trabalho, a atuação de gabinetes parlamentares e a fiscalização de benefícios concedidos no sistema penitenciário.

O que diz a outra parte?

Por meio de nota, a casa de leis da capital informou?

“A Câmara Municipal de Macapá manifesta preocupação com a Operação Cavalo de Troia, deflagrada nesta quinta-feira, 15, que teve como alvo o vereador Daniel Theodoro, eleito vice-presidente da Mesa Diretora para o biênio 2027-2028.

A cronologia dos fatos causa estranheza. O Inquérito Policial nº 7248/2026, instaurado pelo delegado Estéfano da Silva Santos, foi aberto em 10 de setembro, exatamente no mesmo dia em que a Record TV gravou e exibiu reportagem na qual o delegado foi entrevistado sobre o suposto envolvimento do ex-prefeito Antônio Furlan com facções criminosas.

Mais questionável ainda é a deflagração da operação apenas dois dias após a eleição da Mesa Diretora, atingindo justamente um integrante da chapa vencedora. A sequência dos acontecimentos levanta dúvidas legítimas sobre a motivação e o momento escolhido para a ação, exigindo esclarecimentos que afastem qualquer suspeita de instrumentalização política da estrutura policial.

A nota divulgada pela Polícia Civil também merece esclarecimentos ao mencionar diligências em gabinetes e dependências da Câmara de forma abrangente, quando as buscas se concentraram em apenas duas salas.

Diante da gravidade dos fatos, o presidente Pedro DaLua, por meio da Procuradoria da Câmara, requererá o afastamento cautelar do delegado Estéfano da Silva Santos das investigações relacionadas ao caso e apresentará representação à Corregedoria da Polícia Civil, para apuração da regularidade de sua atuação e de eventual motivação alheia à finalidade investigativa.

A Câmara não se opõe ao combate ao crime organizado nem pretende obstruir investigações. Exige, porém, imparcialidade, legalidade e transparência. A utilização do aparato policial não pode servir a interesses políticos nem produzir interferências indevidas na autonomia do Poder Legislativo.

Macapá, 15 de outubro de 2026

Pedro daLua
Presidente da Câmara Municipal de Macapá