Faltam três dias para o segundo turno, e o clima nas redes é de jogo decidido. De um lado, muitos bolsonaristas falam como quem já ganhou. Do outro, muitos lulistas exibem um desânimo que nem tentam esconder.
Minha opinião vai na contramão das duas torcidas: qualquer um dos dois pode vencer no domingo, 25 de outubro. E não espero uma diferença maior do que 2 pontos percentuais entre eles.
Não sou cientista político nem marqueteiro. Sou advogado e acompanho pesquisas eleitorais há cerca de 25 anos. Este é um artigo de opinião, e por isso faço uma separação clara ao longo do texto:
- Fato: dado público e verificável, com a fonte listada ao final.
- Minha leitura: interpretação pessoal, que pode estar errada.
- Exemplo ilustrativo: situação hipotética, só para facilitar a compreensão.
A proposta é olhar para cinco pontos que, a meu ver, explicam por que este segundo turno segue aberto: o placar do primeiro turno, a queda da rejeição, os limites das pesquisas, o comportamento do indeciso e o eleitor que simplesmente não aparece na urna.
O placar de partida: quase um empate
Fato: no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos (56,1 milhões de votos). Lula (PT) teve 45,16% (53,9 milhões). A diferença foi de 1,87 ponto percentual, ou cerca de 2,2 milhões de votos.
“Votos válidos” são os votos dados a candidatos. Brancos e nulos ficam de fora dessa conta, e é ela que define o vencedor.
Fato: os demais candidatos somaram 9,3 milhões de votos. É mais de quatro vezes a distância entre os dois primeiros colocados.
Fato: as pesquisas de segundo turno divulgadas nesta reta final mostram o mesmo quadro apertado.
A “margem de erro” é a faixa dentro da qual o número real provavelmente está. Com margem de 2 pontos, um candidato com 45% pode ter, na prática, algo entre 43% e 47%. Quando as faixas dos dois se sobrepõem, fala-se em “empate técnico”.
Minha leitura: nenhum desses números autoriza dizer que a eleição está decidida. Eles mostram uma disputa no fio da navalha.
Fato: há um dado histórico que anima o lado de Flávio. Desde 1989, quem liderou o primeiro turno venceu todos os sete segundos turnos presidenciais. Mas isso é um retrospecto, não uma regra. E os dois últimos segundos turnos presidenciais disputados pelo PT foram decididos por margens curtas: Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por 51,64% a 48,36%, em 2014, e Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1%, em 2022.
A rejeição caiu. Dá para acreditar?
Fato: a pesquisa Quaest divulgada em 21 de outubro mostrou queda na rejeição dos dois candidatos em uma semana. A de Lula caiu de 53% para 47%. A de Flávio, de 54% para 52%, variação dentro da margem de erro.
“Rejeição”, nessas pesquisas, é o percentual de pessoas que dizem que não votariam naquele candidato de jeito nenhum. À primeira vista, o dado parece estranho. Com o nível de agressividade da campanha e dos debates, alguém poderia esperar o contrário.
Minha leitura: a queda faz sentido, e o motivo é mais emocional do que racional. No primeiro turno, o eleitor tinha outras opções e podia rejeitar os dois sem culpa. No segundo turno, ou ele escolhe um, ou vota branco, nulo ou fica em casa. Quem decide votar em alguém, de certa forma, deixa de rejeitá-lo.
Exemplo ilustrativo: imagine um restaurante com dez pratos no cardápio. Você diz que “jamais comeria” dois deles. Na semana seguinte, o restaurante só serve esses dois. Se você estiver com fome, vai acabar escolhendo um. Não porque passou a gostar dele, mas porque precisa comer.
Há também uma conta simples que ajuda a entender o fenômeno. Num segundo turno, a rejeição de um candidato tende a se aproximar do total de votos do adversário, somado a quem não quer nenhum dos dois.
Minha leitura sobre os números da Quaest:
- Flávio tem 45% das intenções de voto, e a rejeição de Lula é de 47%. Ou seja, quase só quem vota em Flávio rejeita Lula.
- Lula tem 44% das intenções de voto, e a rejeição de Flávio é de 52%. Sobram cerca de 8 pontos de pessoas que rejeitam Flávio sem votar em Lula.
Se essa leitura estiver certa, o eleitor do “nem um, nem outro” resiste mais a Flávio do que a Lula. Isso só fará diferença se esse eleitor decidir comparecer e escolher alguém.
Também é preciso cautela: uma queda de 6 pontos em uma semana é um movimento grande, que pode refletir variação da amostra e não necessariamente uma mudança real. E isso tem que ser verificado em confronto com as demais pesquisas já divulgadas e a divulgar, pelo que sugiro aos leitores a ida aos agregadores de pesquisas.
Pesquisas na era da internet: o retrovisor engana
Fato: no primeiro turno deste ano, a maior parte das pesquisas subestimou Flávio Bolsonaro. Um levantamento do site Congresso em Foco analisou as nove pesquisas nacionais da reta final que divulgaram votos válidos. Todas ficaram abaixo do resultado de Flávio, em média por 3,08 pontos. No Datafolha, Lula foi medido quase com precisão, mas Flávio ficou 5,03 pontos abaixo do que obteve nas urnas.
Fato: o fenômeno não é novo. No primeiro turno de 2022, as pesquisas indicavam vantagem de Lula superior a 10 pontos sobre Jair Bolsonaro. A diferença real foi de cerca de 5 pontos.
Fato: especialistas ouvidos pela imprensa apontaram três hipóteses principais: decisão tardia do eleitor, migração de “voto útil” e o chamado “voto envergonhado”, de quem prefere não revelar a escolha. Por outro lado, o estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, ponderou que a divergência, por si só, não permite afirmar que os institutos erraram. Pesquisa é retrato de um momento, não previsão.
Minha leitura: as metodologias estão apanhando nestes tempos de internet. O eleitor está mais desconfiado, mais polarizado e menos disposto a abrir o voto a um entrevistador.
Um ponto técnico importa aqui: a “calibragem” (ou ponderação). É o ajuste que o instituto faz para que a amostra pareça com o eleitorado real. Depois do primeiro turno, é comum usar o resultado das urnas como referência. O problema, a meu ver, é que isso parte da premissa de que o eleitorado do segundo turno será igual ao do primeiro. E isso não é garantido.
Fato: na Quaest de 21 de outubro, a parcela de indecisos na pergunta espontânea (aquela em que o entrevistador não apresenta os nomes) dobrou em uma semana, de 7% para 14%. Na pergunta estimulada (com os nomes apresentados), os indecisos são 2%.
Minha leitura: em 25 anos acompanhando pesquisas, aprendi a desconfiar quando um instituto amplia a fatia de indecisos na reta final. Muitas vezes, isso funciona como uma reserva para justificar números que não se confirmem. Já tive essa impressão em disputas estaduais, inclusive aqui no Amapá e no Paraná. É uma percepção pessoal, não uma acusação: não tenho elementos para afirmar intenção de nenhum instituto.
Voto útil e o indeciso que não quer ser julgado
Fato: as pesquisas do primeiro turno mostraram Flávio subindo na reta final. Analistas atribuíram parte disso à migração de eleitores de centro e de direita, que abandonaram candidaturas menos competitivas para apostar em quem tinha mais chance. É o chamado “voto útil”: votar não no preferido, mas em quem pode vencer.
Fato: na Quaest de 21 de outubro, entre eleitores de Ronaldo Caiado no primeiro turno, 57% declaram voto em Flávio e 21% em Lula. Entre os de Renan Santos, 51% a 25% para Flávio. Já entre os de Augusto Cury, Lula lidera: 48% a 33%. O próprio instituto alerta que, nesses recortes, a margem de erro varia de 17 a 24 pontos. Ou seja, são sinais, não certezas.
Minha leitura: existe um tipo de eleitor que se declara indeciso porque não quer ter o voto julgado. Ele já escolheu, mas prefere não dizer. Se essa hipótese estiver correta, minha impressão é que esse voto tende mais à direita do que à esquerda, como sugerem os erros das pesquisas em 2022 e no primeiro turno de 2026.
Exemplo ilustrativo: pense numa pesquisa de satisfação feita com o dono do restaurante de pé ao seu lado. Muita gente responde “está ótimo” ou “não sei dizer”, mesmo tendo uma opinião bem formada. O ambiente muda a resposta.
É justo registrar o contraponto. Fato: na Quaest de 14 de outubro, entre quem se absteve ou votou branco ou nulo no primeiro turno, 43% declararam preferência por Lula e 38% por Flávio. Não há, portanto, prova de que todo indeciso penda para um lado só.
O eleitor que não aparece: a abstenção
Este é, para mim, o ponto mais subestimado da análise. A pesquisa mede o que o eleitor declara: voto, rejeição, indecisão. Mas não mede se ele vai, de fato, sair de casa no domingo. A “abstenção” é o percentual de eleitores aptos que não comparecem para votar.
Fato: a abstenção no primeiro turno foi de 21,08%, cerca de 33,4 milhões de pessoas. É o maior percentual em um primeiro turno presidencial desde 1998. Percentual maior que a soma de todos os demais eleitores dos outros candidatos.
Fato: a ausência não foi igual em todo o país. Foi maior no Sudeste (22,7%) do que no Nordeste (18,4%). Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo tiveram as maiores taxas, e Flávio venceu nos quatro. O Ceará teve a menor, perto de 15,5%.
Fato: a campanha de Lula declarou que vai mirar justamente esses mais de 33 milhões de ausentes. Quanto ao segundo turno, há leituras divergentes: o Poder360 aponta tendência de alta da abstenção; a análise da Genial Investimentos lembra que isso nem sempre acontece.
Exemplo ilustrativo: no primeiro turno, cerca de 119 milhões de votos foram válidos. Uma vantagem de 2 pontos percentuais equivale a aproximadamente 2,4 milhões de votos. Isso é menos de 8% dos 33 milhões que não votaram. Ou seja: uma pequena diferença de comparecimento entre os eleitores de cada lado basta para mudar o resultado.
Minha leitura: numa eleição parelha, a pergunta decisiva não é só “em quem o eleitor vai votar”, mas “qual eleitor vai faltar mais”. Os dois lados têm motivos para se preocupar. As regiões mais favoráveis a Flávio tiveram mais ausências no primeiro turno, o que é risco e também reserva de votos. O eleitorado de Lula, por sua vez, costuma depender mais de mobilização para chegar à urna.
Vence quem tirar o próprio eleitor de casa. E só teremos segundo turno para governador em 6 colégios eleitorais, o que tende a desmobilizar a ida do eleitor às urnas no segundo turno em 21 estados.
O outro lado: o que pode desmentir esta análise
Um artigo de opinião honesto precisa expor os argumentos contrários. Estes são os principais:
- As pesquisas podem estar certas. Depois dos erros do primeiro turno de 2022, os principais institutos chegaram mais perto do resultado no segundo turno daquele ano. Pode acontecer de novo.
- O retrospecto favorece Flávio. O líder do primeiro turno venceu todos os segundos turnos desde 1989, e o Gerp, que esteve entre os mais precisos no primeiro turno, mostra Flávio com 52% a 48% dos válidos, fora da margem de erro.
- A queda da rejeição de Lula pode ser real. Ela pode refletir efeito do debate ou das mobilizações de campanha, e não apenas a lógica do segundo turno.
- O indeciso pode não ser “envergonhado”. Ele pode simplesmente estar indeciso, e o grupo que rejeita os dois parece resistir mais a Flávio.
Todos esses argumentos são plausíveis. Mas, somados, eles reforçam a tese central: há elementos concretos a favor de cada lado, e nenhum deles fecha a conta.
Conclusão: ninguém ganhou ainda
O segundo turno de 2026 começou com a menor diferença de um primeiro turno desde a redemocratização. As pesquisas da reta final seguem dentro ou perto da margem de erro.
Em síntese, os pontos que sustentam minha opinião são estes:
- O placar é apertado. Flávio saiu na frente por 1,87 ponto, e as pesquisas não mostram uma virada nem uma disparada.
- A queda da rejeição é coerente com o segundo turno. Quando sobram só duas opções, quem escolhe um lado deixa de rejeitá-lo. É emoção, não cálculo.
- As pesquisas têm limites. Elas subestimaram a direita no primeiro turno de 2022 e de 2026, e a calibragem pelo primeiro turno pressupõe um eleitorado que pode não se repetir.
- O indeciso pode estar escondendo o voto. Na minha leitura, esse voto tende mais à direita, embora os dados não permitam afirmar isso com segurança.
- A abstenção pode decidir. Uma diferença de comparecimento de poucos pontos entre as bases já basta para definir o resultado.
Por isso, nem a certeza de uns nem o desalento de outros me parecem justificados. Minha aposta pessoal é de uma diferença de até 2 pontos percentuais, para qualquer dos lados. No domingo, mais do que convencer o indeciso, vai ganhar quem conseguir levar o próprio eleitor até a urna.


