Mensagens reveladas nesta quinta-feira (22) mostram que o banqueiro procurou um integrante da supervisão bancária para tentar reverter os efeitos de uma reportagem sobre riscos do Master. Na mesma conversa, afirmou ter perdido uma negociação milionária envolvendo o Amapá, embora os investimentos tenham sido aprovados naquele mês.
Uma nova investigação jornalística revelou que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, procurou um alto funcionário do Banco Central para tentar conter os efeitos de uma reportagem que expôs a rejeição de um investimento de R$ 500 milhões pela Caixa Asset, braço de investimentos da Caixa Econômica Federal.
A conversa aconteceu em 12 de julho de 2024, justamente no dia em que a Amapá Previdência (AMPREV) aprovou a primeira aplicação de R$ 200 milhões em letras financeiras do Banco Master.
As mensagens, divulgadas nesta quinta-feira (22) pela Folha de S.Paulo, mostram que Vorcaro reclamou dos prejuízos provocados pela divulgação do parecer contrário dos técnicos da Caixa e afirmou que havia perdido uma negociação de R$ 400 milhões em títulos com vencimento em dez anos envolvendo o Amapá.
O interlocutor do banqueiro era Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central e ex-diretor de Fiscalização da instituição. A revelação acrescenta um novo capítulo às investigações sobre os R$ 400 milhões de recursos previdenciários do Amapá aplicados no Master.
Vorcaro disse que operação com o Amapá já estava aprovada

Segundo as mensagens obtidas pela Folha, Vorcaro demonstrou preocupação com a repercussão das informações sobre a resistência de técnicos da Caixa Asset à compra de letras financeiras do Master. O empresário afirmou que a divulgação poderia comprometer outras operações que estavam sendo negociadas pelo banco.
Entre elas, mencionou uma venda de R$ 400 milhões em títulos com prazo de dez anos para o Amapá. Ao relatar a situação ao dirigente do Banco Central, Vorcaro declarou que a negociação já estava assinada e aprovada por um comitê.
Apesar do relato de perda da operação, os investimentos da AMPREV foram aprovados de forma parcelada naquele mês. No mesmo dia da conversa, o Comitê de Investimentos da previdência estadual aprovou, por unanimidade, uma aplicação inicial de R$ 200 milhões no Banco Master.
- 12 de julho de 2024: aprovação de R$ 200 milhões.
- 19 de julho de 2024: aprovação de mais R$ 100 milhões.
- 30 de julho de 2024: autorização de outros R$ 100 milhões.
Ao final, a exposição da AMPREV ao Banco Master chegou a R$ 400 milhões. A cronologia mostra que o relato do banqueiro sobre a perda de uma negociação não significou a interrupção das aplicações da previdência amapaense no banco.

Banqueiro tentou obter intervenção do Banco Central junto à Caixa
A investigação jornalística revela que Vorcaro pediu a Paulo Sérgio Neves de Souza que o Banco Central procurasse a Caixa Econômica Federal para obter uma manifestação institucional sobre o parecer contrário à compra de títulos do Master. O objetivo era reduzir os danos provocados pela divulgação da avaliação negativa dos técnicos da Caixa Asset.
Três funcionários da subsidiária haviam perdido seus cargos em julho de 2024, depois de se posicionarem contra a aquisição de R$ 500 milhões em letras financeiras emitidas pelo banco.
Na conversa, Vorcaro sugeriu que a Caixa divulgasse um posicionamento esclarecendo que a análise desfavorável não representava a avaliação institucional completa da empresa. Paulo Sérgio respondeu que o Banco Central já havia procurado a Caixa para tratar da apuração do vazamento de informações internas.
A compra de R$ 500 milhões pela Caixa Asset não foi concretizada. Enquanto técnicos da Caixa se posicionaram contra a operação, a AMPREV realizou sucessivas aplicações no Master durante o mesmo mês.

Investimentos da AMPREV estão sob investigação da Polícia Federal
As decisões que autorizaram a aplicação dos R$ 400 milhões são investigadas pela Polícia Federal. Em fevereiro de 2026, a Operação Zona Cinzenta cumpriu mandados de busca e apreensão para apurar suspeitas de gestão temerária e fraudulenta envolvendo recursos da previdência dos servidores do Amapá.
Entre os investigados estão Jocildo Silva Lemos, então diretor-presidente da AMPREV, e integrantes do comitê responsável pelas aplicações. As investigações procuram esclarecer se os responsáveis avaliaram adequadamente os riscos das operações, especialmente diante das informações disponíveis sobre a situação financeira do Banco Master.
As letras financeiras adquiridas tinham vencimento de longo prazo e não contavam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025, colocou em risco a recuperação dos valores investidos pela previdência estadual.
A existência da investigação não significa que os dirigentes da AMPREV tenham sido considerados culpados pelos crimes apurados.
Defesa de ex-dirigente do Banco Central nega favorecimento
Procurada pela Folha, a defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza negou que o ex-dirigente tenha protegido interesses particulares de Daniel Vorcaro ou recebido vantagens indevidas. Os advogados sustentaram que as interações com a Caixa ocorreram no contexto das atribuições institucionais do Departamento de Supervisão Bancária.
A defesa também afirmou ao jornal que as tratativas com a Caixa ficaram a cargo da equipe responsável pela supervisão da estatal. Segundo os advogados, Paulo Sérgio acompanhava bancos pequenos e médios de São Paulo e consultou o parecer da Caixa Asset para verificar informações relevantes à supervisão do Master.
Segundo a defesa, o acompanhamento das condições de liquidez das instituições financeiras fazia parte do trabalho regular de supervisão do Banco Central.
A Caixa Econômica Federal também afirmou à Folha que a Caixa Asset possui autonomia para suas decisões de investimento e segue procedimentos técnicos de análise e governança. A instituição reiterou que a compra dos títulos do Banco Master não foi realizada.
O Banco Central e a defesa de Vorcaro não se posicionaram na reportagem da Folha.
Novas mensagens ampliam questionamentos sobre o dinheiro dos servidores
As revelações desta quinta-feira acrescentam uma informação à investigação sobre o patrimônio previdenciário do Amapá: no mesmo dia da primeira aprovação de investimento da AMPREV, Vorcaro discutia com um integrante da supervisão do Banco Central os efeitos negativos das notícias sobre a Caixa e mencionava diretamente uma negociação de R$ 400 milhões envolvendo o estado.
A existência da conversa, entretanto, não comprova que Paulo Sérgio tenha interferido nas decisões da AMPREV ou que dirigentes da previdência estadual tenham recebido orientações do Banco Central para autorizar os investimentos.
O exame dos documentos de negociação, das deliberações e das ordens de aplicação poderá esclarecer os critérios utilizados para autorizar os aportes e as condições contratadas pela previdência estadual.
A questão central permanece: quais critérios levaram a previdência dos servidores amapaenses a investir R$ 400 milhões em uma instituição que, naquele mesmo período, havia recebido avaliação negativa de técnicos da Caixa?
As respostas poderão ajudar a esclarecer se houve falhas de gestão, influência indevida ou decisões tomadas exclusivamente com base nas avaliações financeiras disponíveis à época. O Luis Eduardo Notícias continuará acompanhando os desdobramentos das investigações e as medidas destinadas à proteção dos recursos previdenciários do Amapá.
Com informações da Folha de S.Paulo, em reportagem de Lucas Marchesini e Raquel Lopes publicada em 22 de outubro de 2026, e informações anteriores sobre a Operação Zona Cinzenta e as aplicações da AMPREV.

