Por Luis Eduardo | 28 de outubro de 2026
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) elevou a tensão política no país nesta quarta-feira (28), ao divulgar uma carta em que inicialmente se apresentou como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, contestou o resultado das eleições presidenciais e anunciou que pretende liderar a oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diretamente dos Estados Unidos.
A declaração foi divulgada após o parlamentar desembarcar em Miami, acompanhado da família, mesmo depois de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega de seus passaportes e proibiu sua saída do território brasileiro.
O documento foi inicialmente compartilhado por aliados, entre eles o influenciador Paulo Figueiredo. Posteriormente, Flávio publicou outras versões da carta em suas redes sociais, alterando a forma como se apresentava ao público.
Na primeira versão, o senador afirmava ser o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Na versão mais recente, substituiu a expressão por “líder do Brasil”.
Apesar da mudança, manteve as acusações contra o sistema eleitoral, as críticas ao STF e a promessa de comandar a oposição brasileira do exterior.
Flávio questiona resultado das urnas
Na carta, Flávio Bolsonaro acusa o Judiciário brasileiro de interferir no processo eleitoral e sustenta que o resultado do segundo turno, realizado no domingo (25), teria sido comprometido por irregularidades.
O principal questionamento envolve a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou até as 19h, no horário de Brasília, a votação nas seções eleitorais que ainda estavam abertas.
O senador argumenta que a decisão criou condições desiguais entre os eleitores e comprometeu a lisura do pleito.
Flávio também acusa a chapa Lula-Alckmin de abuso de poder político e econômico durante a campanha, defendendo sua cassação.
As acusações de fraude eleitoral não foram acompanhadas de provas.
De acordo com o resultado oficial divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A diferença entre os candidatos foi de 4.430.191 votos.
Embora o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, tenha reconhecido dificuldades operacionais provocadas pela prorrogação do horário de votação, os dados da Justiça Eleitoral mostram que apenas 34.393 votos foram registrados após as 17h, quantidade insuficiente para modificar o resultado da eleição.
Saída do país e investigação da Polícia Federal
A divulgação da carta ocorre em meio a um novo capítulo da investigação que envolve o senador no Supremo Tribunal Federal.
Na segunda-feira (26), Alexandre de Moraes determinou a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro e proibiu sua saída do Brasil.
A decisão foi tomada no âmbito de uma investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. Flávio nega irregularidades.
Apesar da restrição, o parlamentar deixou o território brasileiro e chegou aos Estados Unidos na manhã desta quarta-feira.
Em nota oficial, a Polícia Federal informou que os passaportes comum e diplomático brasileiros do senador foram cancelados após a decisão judicial. Também foi inserido um alerta migratório e determinada a entrega de eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades.
A corporação confirmou que não existe registro oficial de saída de Flávio pelos postos de controle migratório brasileiros e informou que investiga as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais.
A PF esclareceu, entretanto, que as restrições impostas aos documentos de viagem não caracterizam, por si só, a condição de foragido nem autorizam automaticamente sua prisão.
Na carta, Flávio rejeita a interpretação de que fugiu do país. Segundo ele, a decisão de deixar o Brasil foi motivada pela necessidade de proteger sua família e continuar sua atuação política.
O senador também acusa integrantes do Supremo de promover perseguição contra opositores do governo federal.
Agradecimentos a Donald Trump e Javier Milei
Outro trecho de destaque da declaração é dedicado aos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei.
Flávio agradece ao presidente argentino pelo que classifica como compromisso com a liberdade e a legalidade. Ao presidente americano, manifesta reconhecimento pelo acolhimento recebido nos Estados Unidos.
O senador afirma que a permanência em território americano permitirá o exercício de sua atividade política sem as restrições que diz enfrentar no Brasil.
Donald Trump, por sua vez, confirmou que o governo americano autorizou a entrada de Flávio Bolsonaro, mas declarou a jornalistas que não pretende se envolver na crise política brasileira.
A carta também estabelece comparações com personagens históricos que exerceram atividades políticas no exílio, entre eles Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí.
Flávio cita ainda lideranças oposicionistas venezuelanas para defender sua decisão de continuar atuando politicamente fora do território nacional.
Recado ao Congresso: “Liderarei a oposição daqui”
O comunicado também contém uma mensagem direta a parlamentares e governadores aliados, especialmente ao senador Rogério Marinho (PL-RN), apontado por Flávio como seu candidato à presidência do Senado.
Na declaração, o parlamentar afirma que pretende assumir uma posição de liderança na oposição brasileira a partir dos Estados Unidos.
“Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.”
A mensagem indica que Flávio pretende preservar sua influência sobre o grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo distante de Brasília.
O senador também faz um apelo às instituições brasileiras, defendendo mudanças na relação entre os Poderes e acusando o Judiciário de limitar a atuação da oposição.
Nova crise política após as eleições
A manifestação de Flávio Bolsonaro ocorre apenas três dias depois de sua derrota no segundo turno e amplia o confronto político e institucional que se instalou após a divulgação do resultado eleitoral.
A autodeclaração inicial como presidente eleito não modifica o resultado oficial anunciado pelo TSE, que confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Entretanto, a decisão de permanecer nos Estados Unidos, contestar a votação e tentar liderar a oposição do exterior abre uma nova frente de disputa política, com possíveis repercussões no Congresso Nacional e nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Enquanto a Polícia Federal investiga as circunstâncias da saída do senador do país, Flávio Bolsonaro sinaliza que pretende transformar os quase 60 milhões de votos recebidos na eleição em uma força de mobilização política contra o governo Lula.
O cenário coloca o senador no centro de uma disputa que ultrapassa as fronteiras brasileiras e acrescenta novos elementos à crise política iniciada após o segundo turno das eleições de 2026.

