Uma investigação publicada nesta sexta-feira (16) pelo portal UOL revelou novos detalhes sobre os bastidores das aplicações milionárias da Amapá Previdência (AMPREV) no Banco Master. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário Daniel Vorcaro mostram negociações envolvendo dirigentes da instituição financeira, intermediários e lideranças políticas para viabilizar investimentos de recursos destinados à aposentadoria de servidores públicos.

A revelação mais significativa para o Amapá é a existência de mensagens que mencionam o pagamento de R$ 11 milhões em comissão relacionada à operação no estado, além da participação do presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, nas articulações para a liberação dos investimentos.

A reportagem, assinada por Fábio Serapião, Natália Portinari e Cézar Feitoza, também apresenta elementos sobre a atuação de ACM Neto, vice-presidente do União Brasil, na aproximação do Banco Master com institutos previdenciários de diferentes estados.

Negociação de R$ 400 milhões começou meses antes da aprovação

Foto: Jorge Abreu/arquivo g1

De acordo com as mensagens divulgadas pelo UOL, as negociações envolvendo recursos previdenciários do Amapá já estavam avançadas em abril de 2024.

Naquele mês, Fernando Mascarenhas, diretor comercial do Banco Master, informou a Vorcaro que havia uma captação de R$ 400 milhões encaminhada no estado.

A movimentação ganhou novos capítulos em 12 de julho de 2024, data em que ocorreram discussões sobre a aprovação dos investimentos.

Em uma conversa, o tesoureiro do banco, Alberto Felix, informou que a operação seria temporariamente suspensa em razão da repercussão de notícias envolvendo títulos do Master e a Caixa Asset.

Na mesma mensagem, Felix atribuiu a Antônio Rueda uma orientação para segurar as operações.

Ainda naquele dia, Rueda pediu a Vorcaro que apagasse mensagens da conversa. Segundo a reportagem, dez mensagens consecutivas haviam sido excluídas.

Pouco depois, Mascarenhas comunicou ao empresário que R$ 200 milhões haviam sido aprovados no Amapá.

As conversas indicam que decisões envolvendo centenas de milhões de reais em recursos previdenciários eram acompanhadas diretamente pela cúpula do Banco Master e discutidas com intermediários políticos.

Comissão milionária aparece nas mensagens

ponto revelado pela investigação envolve pagamentos a consultorias que teriam participado da captação dos recursos.

Em julho de 2024, Alberto Felix consultou Vorcaro sobre uma comissão de R$ 8,9 milhões relacionada à operação do Amapá. No dia seguinte, o empresário autorizou a emissão de uma nota no valor de R$ 8 milhões.

A negociação envolvia uma consultoria associada a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela Polícia Federal como lobista de Vorcaro em operações envolvendo o Rioprevidência.

Entretanto, a mensagem mais significativa apareceu em 1º de agosto de 2024.

Na ocasião, a tesouraria do Banco Master registrou o pagamento de R$ 11 milhões em contas a pagar, identificados nas conversas como comissão vinculada ao Amapá.

Segundo o UOL, naquele momento a AMPREV já havia transferido R$ 300 milhões ao banco.

A documentação divulgada levanta uma questão central: quem recebeu os R$ 11 milhões mencionados nas mensagens, quais serviços justificaram o pagamento e qual foi a participação efetiva dos intermediários na captação dos recursos previdenciários?

O registro da comissão, por si só, não comprova que os valores tenham sido retirados diretamente do patrimônio da AMPREV, nem identifica definitivamente os beneficiários finais.

Ligação política com Davi Alcolumbre

Jocildo Lemos, que também é presidente da Liga das Escolas de Samba do Amapá e Davi Alcolumbre (UB), presidente do Senado

A investigação também recoloca em evidência a composição do comitê responsável pela aprovação das aplicações da Amapá Previdência.

O colegiado que aprovou o investimento de R$ 400 milhões era presidido por Jocildo Silva Lemos, identificado na reportagem como ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal, e indicado político do parlamentar.

A relação ganha relevância diante das mensagens que atribuem a Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, participação nas articulações envolvendo a operação.

Rueda e Alcolumbre integram o mesmo partido.

Até o momento, entretanto, as mensagens divulgadas não demonstram participação direta de Davi Alcolumbre nas negociações, no recebimento de comissões ou na autorização dos pagamentos mencionados.

A existência de vínculos políticos exige esclarecimentos, mas não constitui, isoladamente, prova de irregularidade.

PF pediu buscas contra dirigentes partidários

A reportagem também informa que o Banco Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Antônio Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto.

Em uma proposta de colaboração premiada, posteriormente rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, Vorcaro afirmou que os dois dirigentes teriam atuado para facilitar investimentos previdenciários no Master em troca de comissões equivalentes a 10% dos valores aplicados.

As mensagens divulgadas, contudo, não comprovam o pagamento direto dessas comissões a Rueda e ACM Neto.

Com base nos elementos reunidos, a Polícia Federal solicitou medidas de busca e apreensão em endereços ligados aos dois políticos. Segundo o UOL, as medidas não foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Rueda nega irregularidades e sustenta que os valores recebidos por seus escritórios decorreram de serviços advocatícios documentados e tributados.

ACM Neto também nega ter intermediado investimentos de institutos previdenciários e afirma que os pagamentos recebidos correspondem a serviços de consultoria regularmente prestados.

Dinheiro da aposentadoria dos servidores sob investigação

As novas revelações ampliam os questionamentos sobre os investimentos realizados pela AMPREV em títulos do Banco Master.

O caso integra o conjunto de investigações relacionadas à Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o banco e operações com recursos públicos.

A documentação publicada nesta sexta-feira acrescenta um elemento até então pouco detalhado: a existência de negociações sobre comissões milionárias associadas à captação dos recursos previdenciários do Amapá.

Para esclarecer a operação, será necessário identificar os destinatários dos pagamentos, examinar contratos de consultoria, notas fiscais e transferências bancárias, além de confrontar esses documentos com as atas e decisões do comitê de investimentos da AMPREV.

Também permanece fundamental esclarecer quais informações sobre os riscos do Banco Master foram apresentadas aos responsáveis pela aprovação das aplicações.

O ponto central é saber se as decisões de investimento foram tomadas exclusivamente com base em critérios técnicos e na proteção do patrimônio previdenciário ou se houve influência indevida de interesses externos.

As novas mensagens não representam condenação dos envolvidos, mas acrescentam elementos documentais relevantes à investigação sobre o destino de recursos vinculados à aposentadoria dos servidores públicos amapaenses.