No domingo (25), o presidente foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Foi a primeira virada de segundo turno numa eleição presidencial desde a redemocratização. Nesta segunda-feira (26), porém, o mercado financeiro reagiu com pânico.
Este artigo analisa o que esperar dos últimos meses do Lula 3 e do Lula 4, que começa em 5 de janeiro de 2027. A tese é simples: o quarto mandato é a última janela para Lula transformar uma vitória histórica em legado duradouro.
Como ler este texto: números e eventos com fonte são fatos. Trechos iniciados por “Na avaliação desta coluna” ou equivalentes são opinião do autor.
O recado das urnas e o recado do mercado
As urnas deram a Lula uma vitória legítima, mas estreita. A diferença foi de cerca de 4,4 milhões de votos. No primeiro turno, Flávio havia terminado à frente, com 47,03% contra 45,16%.
O mercado deu outro recado. No primeiro pregão após a eleição, a Bolsa acionou o circuit breaker (uma pausa automática nas negociações quando a queda passa de 10%). O Ibovespa fechou em queda de 13,88%, e o dólar subiu mais de 8%, para cerca de R$ 5,40. Os juros futuros, que indicam quanto o mercado cobra para emprestar ao governo no longo prazo, passaram de 16% ao ano em alguns contratos.
Uma analogia ajuda. O eleitor renovou o contrato do inquilino. O credor, porém, subiu o valor da fiança. Ele quer garantias de que as contas serão pagas.
Há ainda um ruído institucional. Flávio Bolsonaro disse, e depois retrocedeu, que não reconheceria o resultado e que pedirá a anulação do pleito. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceram a vitória e pediram pacificação.
O fim do Lula 3: a herança que o Lula 4 recebe de si mesmo
O quarto mandato começa sem folga no Orçamento. Os números divulgados pela imprensa especializada mostram isso com clareza:
- Dívida pública bruta: 82,9% do PIB em agosto, contra 71,7% no fim de 2022.
- Selic: 13,75% ao ano. A próxima reunião do Copom é em 4 de novembro.
- Inflação: 4,58% em 12 meses até setembro, acima do teto da meta.
- Déficit primário: R$ 94,9 bilhões de janeiro a agosto. Déficit primário é quando o governo gasta mais do que arrecada, sem contar os juros da dívida.
- Juros da dívida: R$ 1,182 trilhão pagos em 12 meses, ou 8,86% do PIB.
Há um detalhe técnico decisivo: mais da metade da dívida pública é corrigida pela Selic. Quando o Banco Central sobe juros para conter a inflação, a dívida cresce sozinha. É uma bola de neve.
Até 5 de janeiro, o desafio do Lula 3 é fechar o ano sem novas surpresas. O Orçamento de 2027 pode precisar de um ajuste de até R$ 39,9 bilhões, segundo levantamento divulgado hoje. Economistas ouvidos pela CNN Brasil apontam a indexação dos gastos (despesas que crescem automaticamente) como motor do desequilíbrio. A conclusão deles é direta: sem resolver o fiscal, não se resolve o juro. E sem resolver o juro, não há crescimento.
CBS e Imposto Seletivo: o primeiro teste do novo mandato
A primeira grande decisão do Lula 4 chega antes da posse. Em 1º de janeiro de 2027 começam a valer dois tributos criados pela reforma tributária:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): tributo federal que substitui o PIS e a Cofins. Sua alíquota de referência deve ser fixada por resolução do Senado.
- Imposto Seletivo: apelidado de “imposto do pecado”, incide sobre produtos considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente, como cigarro, bebidas alcoólicas e açucaradas, veículos e apostas. Suas alíquotas dependem de lei, e o governo adiou o envio da proposta para depois da eleição.
O projeto de Orçamento de 2027 prevê arrecadar R$ 636 bilhões com a CBS e R$ 41,9 bilhões com o Imposto Seletivo. As alíquotas, porém, ainda não foram divulgadas. As empresas estão a poucas semanas de cobrar tributos sem saber o percentual.
Um ponto técnico importa aqui. A reforma foi desenhada para manter a carga tributária neutra: nem aumentar, nem reduzir a arrecadação total. Funciona como uma gangorra. Quanto mais exceções no Seletivo, maior tende a ser a CBS para compensar.
Na avaliação desta coluna, o governo tem aqui uma oportunidade rara. O Brasil não tem mais espaço para arrecadar. A carga já é alta e as contas seguem no vermelho. Logo, o ajuste precisa vir do gasto, não de novos impostos. Calibrar a CBS no piso da neutralidade, e não no teto, e usar o Seletivo com função regulatória, e não como caixa, seria o primeiro sinal concreto de que o Lula 4 aponta para a redução gradual da carga tributária. Esse gesto vale mais para o mercado do que qualquer discurso.
Promessas de segundo turno: o que cabe no Orçamento
Para virar a eleição, a campanha apostou em medidas de alto apelo. Entre elas: o fim da escala 6×1 (PEC já aprovada pela Câmara), a tarifa zero no transporte público, a ampliação do Pé-de-Meia, o perdão de dívidas de MEIs (estimado em R$ 12,9 bilhões) e o reajuste de 15,04% do Bolsa Família (custo de R$ 23,4 bilhões por ano, segundo a Instituição Fiscal Independente).
Somadas, as medidas anunciadas em 2026, incluindo crédito e renúncias, são estimadas entre R$ 290 bilhões e R$ 405 bilhões. O governo afirma que nem tudo é despesa nova e que as metas fiscais serão respeitadas.
Na avaliação desta coluna, o desafio não é escolher entre o social e o fiscal. É entender que um depende do outro. Inflação alta é o imposto mais cruel para o pobre. Juros altos encarecem o crédito de quem mais precisa dele. Proteger o Bolsa Família exige, paradoxalmente, gastar com mais critério em outras áreas.
O caminho sensato é escalonar: cumprir as promessas com cronograma, metas de custo e avaliação de resultados. Promessa sem calendário vira dívida. Promessa com calendário vira política pública.
Um Congresso à direita: obstáculo ou oportunidade?

O Congresso que toma posse em fevereiro de 2027 terá a direita mais forte das últimas décadas. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um só partido desde 1988. A federação PT-PCdoB-PV terá 88. No Senado, o PL deve somar 28 ou 29 das 81 cadeiras, cerca de três vezes a bancada do PT.
Para aprovar uma emenda constitucional (PEC), o governo precisa de 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos. Com esse Congresso, medidas que voltem a tributar o setor produtivo terão dificuldade natural de aprovação. O PL, porém, não tem maioria sozinho. O Centrão continua sendo o fiel da balança.
Na avaliação desta coluna, esse cenário pode ser uma vantagem. Um Congresso que resiste a novos impostos empurra o governo para o único ajuste possível: o do gasto. E uma agenda de equilíbrio fiscal, alívio tributário e apoio à indústria é justamente a que tem chance de reunir votos fora da esquerda.
Motta e Alcolumbre já ofereceram a ponte. Ambos falaram em pacificação e cobraram humildade e autocrítica do presidente. Lula, por sua vez, afirmou que vai mudar o jeito de governar e governar para todos. Se cumprir, pode assumir um papel que o país espera há uma década: o de condutor da pacificação nacional.
Legado e sucessão: a janela que não se repete
Pela Constituição, que permite apenas uma reeleição consecutiva, Lula não poderá disputar a Presidência em 2030. Terá 85 anos ao fim do mandato. Este é, na prática, o último capítulo da sua trajetória no poder.
Os fatos da biografia já são extraordinários. Primeiro presidente eleito quatro vezes. Primeiro a virar um segundo turno presidencial. Nos dois primeiros mandatos, o país viveu crescimento com inclusão social e saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014.
A biografia também carrega sombras. Os escândalos do Mensalão e do Petrolão levaram à condenação de dirigentes e aliados do PT. As condenações do próprio Lula na Lava Jato foram anuladas pelo STF em 2021. Ainda assim, o tema segue vivo no debate público e pesou nas urnas.
Na avaliação desta coluna, a melhor resposta a esse passado não é retórica. É obra. Um governo que entregue contas organizadas, juros em queda, indústria fortalecida e uma transição tranquila escreveria um capítulo capaz de se sobrepor às manchetes de outrora.
A sucessão é parte desse legado. Nomes como Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Camilo Santana e Rafael Fonteles já circulam nos bastidores. Nenhum deles herdará votos se herdar uma economia em crise. O maior cabo eleitoral de um sucessor progressista em 2030 não será o discurso de Lula. Será o preço do arroz, a parcela do financiamento e o emprego na fábrica.
O outro lado do argumento
Nem todos compartilham esse otimismo. Analistas do mercado, como os ouvidos pela Gazeta do Povo e pela Capital Economics, preveem que a dívida pode se aproximar de 95% do PIB até 2030 e duvidam que o arcabouço fiscal, sozinho, seja suficiente. Há também quem, à esquerda, rejeite a ideia de ajuste e veja no gasto social o principal motor do crescimento. E a oposição, fortalecida no Congresso, tem incentivos para dificultar a vida do governo até 2030. A tese deste artigo depende de uma escolha que só o presidente pode fazer.
Conclusão
O Lula 4 nasce com legitimidade nas urnas e desconfiança no mercado. Herda dívida em alta, juros elevados e promessas caras. Enfrenta um Congresso mais à direita.
Na avaliação desta coluna, esse conjunto não é uma sentença. É uma oportunidade. Definir CBS e Imposto Seletivo como passo para reduzir a carga, organizar o gasto para abrir espaço à queda da Selic, apoiar a indústria e escalonar as promessas sociais são movimentos que cabem num único projeto: estabilizar o país.
Se aproveitar a janela, Lula pode sair do Planalto como o grande pacificador, fiador da continuidade de um projeto progressista e, para muitos, o maior político da história do Brasil. Se perder o timing, sem nova eleição pela frente, perde também a chance de escrever o último e mais duradouro capítulo da própria biografia. A escolha começa agora, antes mesmo da posse.


